Sobre a importância de curar a dor

Sobre a importância de curar a dor

Conheci Pedro em um grupo do Facebook sobre ansiedade. Em certo momento, ele fez uma postagem e várias pessoas passaram a criticá-lo, dizendo que ele era um rapaz de boa aparência e não parecia sofrer com ansiedade. Alguns chegaram até mesmo a dizer que ele usava um perfil falso. 

Ao ver esses comentários, fiquei intrigado e entrei em contato com ele para conversar. Mesmo que Pedro não fosse o da foto, era um ser humano que estava ali sofrendo com os sintomas. E já após um primeiro contato, Pedro decidiu iniciar comigo um tratamento online.

Ele me disse que estava sofrendo crises de choro. Além disso, estar no trabalho, para ele, era algo muito complicado, pois em todos os locais em que ele estava, seu pensamento era apenas voltar para a casa. Em alguns momentos, a sensação de falta de ar invadia seu corpo e o deixava apavorado.

A história por trás do rosto bonito

Pedro realmente era o rapaz da foto. Tinha 30 anos e uma carreira de sucesso como engenheiro. Porém, ao contrário da imagem, sua história não era bonita, mas cheia de dores e perdas.

Ele havia perdido a esposa em um acidente, 4 meses após seu casamento. Juntos, os dois tinham passado por algumas dificuldades, porém, quando conseguiram comprar a casa dos sonhos, veio o desastre.

Desde então, tinham se passado 4 anos, e ele não se sentia mais completo. A todo momento, tinha a sensação de que faltava algo e não merecia tanta injustiça. Nesse tempo, foi promovido no serviço e realizou pós-graduação fora do país, mas, mesmo assim, não se sentia feliz e sempre faltava alguma coisa.

Além disso, desde o dia em que tinha entregado alguns pertences da sua esposa falecida aos pais dela, não conseguiu mais olhar as fotos antigas e, por isso, havia guardado todas elas.

TEPT ou depressão?

Tivemos mais algumas sessões, até que ficou claro para mim que, embora Pedro tivesse passado por um transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), o que realmente o estava fazendo sofrer era um início de depressão.

Propus então a ele um tratamento com pequenas metas, mas, de início, Pedro achou que isso não daria certo. Acabei convencendo-o a tentar, pois, devido à minha experiência, tinha certeza de que aquele protocolo de atendimento iria ajudá-lo e muito.

O tratamento

Estabelecemos a primeira meta: Pedro tentaria entrar em contato com a família de sua esposa. Já de início, ele achou que aquilo só iria trazer mais dores a ele, com o que concordei. Mas lhe disse que, se uma ferida seria cutucada, era de extrema importância cicatrizar tudo aquilo que estava aberto.

Ele prometeu tentar e se passaram duas sessões até que realmente conseguisse entrar em contato com os sogros. Ao contrário do que ele imaginava, por mais que aquilo houvesse gerado um sofrimento, Pedro se sentiu acolhido e confortável como há muito tempo não se sentia.

A segunda meta estabelecida era de que Pedro buscasse fazer as pazes com a sua vida. Analisamos que, ao esconder e guardar as fotos de sua esposa, ele apenas estava evitando romper os laços com ela.

Por isso, decidimos que ele escolheria uma foto deles e publicaria em suas redes sociais, falando sobre o significado daquela imagem para ele. Pesou para isso o fato de que ele sempre reclamava que casais se mostravam demais em redes sociais e que, para ele, aquilo era uma perda de tempo.

Para nossa alegria, Pedro voltou na outra semana feliz, comentando que tinha feito a tarefa e tinha recebido apoio de amigos e familiares, que se mostraram felizes por ele finalmente estar de volta e que aquilo era muito bom para eles.

Reconstrução

Atualmente, trabalhamos ainda aspectos relacionados ao luto de Pedro. Embora ele já se demonstre mais à vontade em sair, conhecer pessoas e tudo o mais, ainda há uma dificuldade afetiva quanto a relacionamentos.

Mas Pedro tem se mostrado muito empenhado em viver, sabendo que a esposa dele nunca será apagada por qualquer outra história que ele viver. Essa era uma das maiores preocupações dele, de que viver outro relacionamento pudesse fazer sua esposa cair no esquecimento.

Ele tem progredido e voltou a frequentar bares, shows e o futebol, que tanto gosta, aos fins de semana. Por vezes, acaba extrapolando nas redes sociais, mas isso faz parte do processo de quem quer se reencontrar totalmente. As fotos de sua esposa já não estão mais guardadas e ele mantém boa relação com seus sogros.

Ainda temos que trabalhar bastante porque Pedro não está pronto para um relacionamento, mas já começou a se permitir conhecer novas mulheres, o que já é uma evolução imensa.

A importância de combater os medos

Escolhi essa linha de tratamento porque percebi que, devido ao fato de esconder tudo embaixo do tapete, Pedro havia perdido o controle de sua vida. E por mais que muitas vezes seja dolorido enfrentar fantasmas do passado, é necessário curar a dor e não apenas anestesiá-la, como Pedro vinha fazendo ao longo dos anos.

No início, foi muito difícil, como dissemos. Porém, com o decorrer de 14 sessões, esse procedimento se mostrou adequado e eficiente.

Pedro tem apresentado uma melhora constante e vem mostrando estar disposto a, cada vez mais, seguir os passos propostos pela psicoterapia. Com isso, as lembranças boas ficarão e, em breve, sua depressão será somente outra lembrança.

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