Roberto e seus avanços contra o TOC

Roberto e seus avanços contra o TOC

Até os 15 anos mais ou menos, Roberto levava uma vida igual a todo garoto, com estudos, brincadeiras, paqueras e games.

Foi nessa época que, sem nenhum motivo aparente, ele começou a sentir um medo excessivo de se contaminar por germes e de ficar doente. Por isso, passou a lavar as mãos sempre que tocava em maçanetas.

No início, essa ação não o incomodava, já que só acontecia em sua residência e, quando estava fora de casa, a necessidade não aparecia.

Porém, com o passar dos anos, começaram a aparecer pensamentos que tomavam conta de sua mente, por exemplo: “Se você não se limpar, vai ficar muito doente”, “Esse objeto está infectado” e “Você precisa se lavar logo, antes que algum vírus te deixe doente”.

Foi então, a partir do aparecimento desses pensamentos, que passaram a surgir rituais que o atrapalhavam na vida, como, por exemplo, escovar os dentes muitas vezes até se sentir limpo e não sair de casa sem levar um frasco de álcool em gel, o que foi deixando suas mãos ressecadas devido ao uso excessivo do produto.

Toda vez que precisava ir até o médico, era um sofrimento e, após chegar em casa, passava horas embaixo do chuveiro para poder se sentir limpo.

Apesar de já ter chegado aos 24 anos e do desejo natural, Roberto desenvolveu também um medo de se relacionar com garotas por acreditar que, através do beijo, ficaria muito doente.

Primeira consulta

Quando entrou no meu consultório em sua primeira sessão, Roberto aparentava muita desconfiança, olhando para os lados de maneira a investigar o ambiente.

Antes de se sentar na poltrona, tirou um pano úmido e passou no assento. Logo imaginei que se tratava de alguém que sofria com Transtorno Obsessivo-Compulsivo, o TOC.

Estendi minha mão para poder cumprimentá-lo, mas ele pediu que não o levasse a mal, pois preferia um cumprimento apenas verbal. Disse que, dessa forma, seria mais confortável para ele.

A história que contei acima é o resumo de tudo o que Roberto me disse. Ele também contou que já havia passado em um psiquiatra e que este o havia diagnosticado com TOC. Isso facilitou o trabalho de terapia, devido ao fato de ele já estar medicamentado.

Pensamentos automáticos

Como primeiro passo para o tratamento, pedi que Roberto, durante uma semana, anotasse todos os seus pensamentos automáticos. Coisas do tipo: “Vou ficar doente se não tomar banho neste momento” e “Não posso ter contato físico com ninguém”, entre outros.

Porém, após essa primeira semana, Roberto avisou que não conseguira fazer a atividade e disse acreditar que o caso dele não tinha solução.

Por isso, tivemos que mudar de estratégia e passamos à atividade de parada de pensamento. Nessa tarefa, o indivíduo prende um pequeno elástico no pulso e o puxa toda vez que pensa em algo que desencadeie os rituais.

Outra maneira é o indivíduo dar um pequeno beliscão no braço. Uma ou outra opção, o estímulo externo passa para o paciente que certo pensamento é disfuncional e, dessa forma, ele consegue anotar em uma agenda o pensamento disfuncional que surgiu.

A tarefa parece um tanto radical, reconheço, mas caiu como uma luva para Roberto. Na outra sessão, ele me trouxe uma lista enorme de pensamentos disfuncionais.

Começamos então a analisar a lista e a questionar juntos esses pensamentos. Por exemplo, ele havia almoçado fora e não estava com a escova de dentes. Isso fez com que pensasse: “Vou ter uma infecção nos dentes e irei perder todos eles”.

Questionamos juntos se havia casos relatados de pessoas que, por não escovarem os dentes após as refeições, tenham desenvolvido casos de infecções e outras doenças. Fizemos o mesmo com vários pensamentos.

Após algumas semanas, a técnica havia trazido bons resultados, mas começou a enfraquecer. Somente as reflexões já não estavam mais impedindo tanto o sofrimento de Roberto.

Rituais

Foi quando sugeri que os familiares fizessem parte do tratamento.

Tive umas conversas rápidas com a mãe de Roberto e aconselhei a ela e a quem mais estivesse na presença dele a não lhe fornecerem informações específicas. Por exemplo, quando Roberto perguntava se havia alguma sujeira em seus dentes, seus familiares e amigos eram instruídos a responderem o seguinte: “Seu psicólogo pediu para não responder a essas questões”.

Com essa ajuda dos familiares e amigos, Roberto gradativamente parou de perguntar para pessoas próximas sobre essas questões que envolviam suas manias. Com o tempo, isso diminuiu muito seus rituais na presença de outras pessoas.

Lembrança imaginária e exposição

Após esse avanço, era hora de descobrir os motivos que levaram Roberto a suas atitudes; precisávamos ir mais a fundo nos pensamentos.

Usamos então a técnica chamada “lembrança imaginária”. Para isso, Roberto deitou-se e fechou os olhos, e eu comecei a perguntar-lhe sobre fatos ocorridos em sua vida.

Chegamos, após um tempo dentro dessa técnica, ao dia em que um amigo ficou extremamente resfriado, com enjoos e náuseas, depois de ter ido a um posto de saúde onde havia muitas pessoas gripadas.

Com essa informação em mente, partimos para uma exposição ao vivo, ou seja, orientei Roberto para que se expusesse de forma gradual a situações que lhe causavam medo de infecção.

É nesse ponto em que estamos. Continuamos hoje com a técnica de exposição.

Roberto evoluiu muito seu quadro e já cumprimenta pegando na mão das pessoas, dando beijos no rosto e até está conhecendo uma companheira.

Ainda existem algumas situações que não conseguimos combater totalmente. Embora ele tenha diminuído consideravelmente a utilização do álcool gel, ainda o carrega consigo, embora já consiga ficar algum tempo sem fazer a higienização. Por exemplo, quando está na rua, ele consegue esperar até chegar em casa.

No próximo passo, levaremos Roberto ao metrô em horários de pico para diminuir seu medo de infecção ainda mais. Uma ótima notícia é que cerca de 80% das compulsões dele já desapareceram.

Qualidade de vida

A história de Roberto é muito bacana por mostrar na prática como é possível superar, por meio de diferentes técnicas, os sintomas do TOC, bem como de outros transtornos.

Vale sempre reforçar que o profissional indicado para dar um diagnóstico e propor um tratamento eficaz é o psicólogo. Por isso, se você apresenta sintomas que atrapalham a sua vida, ou tem um parente ou amigo que apresenta, estamos prontos a ajudar.

Todos têm direito a uma vida saudável, livre de transtornos e com qualidade. Quer saber como? Fale com a gente!

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