Quero ser uma pessoa melhor!

Quero ser uma pessoa melhor!

Em meados do ano passado, ele chegou ao meu consultório. Com 39 anos, chamava-se Cláudio e atuava na área de TI. Tinha me procurado por se achar “uma pessoa muito grossa” e por ver que isso havia feito com que a única vida que tivesse fosse “trabalhar como desenvolvedor e assistir seriado”.

De início, contou-me que desde sempre foi depressivo e grosso, que não tinha boas recordações de sua família e que, com 19 anos, decidiu ir embora para nunca mais ter contato com seus familiares, que “não prestavam”.

Iniciamos o tratamento na metade de setembro com o objetivo inicial de conhecer um pouco mais sobre Cláudio. Era preciso olharmos com atenção para suas atitudes e para a história de sua vida, na busca de descobrirmos o que fazia com que ele fosse tão rude com as pessoas.

Laços fracos

Já na primeira sessão da fase de tratamento, Cláudio contou que, quando era menor, adorava jogar bola. O problema era que ele tinha sempre que mudar de escola, pois seus pais trabalhavam com feiras itinerantes e não ficavam muito tempo nas cidades onde moravam.

Por isso, o menino não conseguia “criar raiz” com seus amigos. Com o passar do tempo, desistiu de jogar bola e passou a se interessar por algo “que não necessitava de mais ninguém”.

Em paralelo a essa dificuldade, Cláudio contou que seu pai era uma pessoa muito dura com ele e sua família. Havia pouco carinho, pouco afeto, embora não deixasse faltar nada dentro de casa. Além disso, lembra que sua mãe “sofria da cabeça”, mesmo que nunca tenha sabido o que era.

Aos 19 anos, cansado da rotina, entrou em uma universidade e se afastou dos seus parentes. É então que a relação com a família praticamente acaba. Cláudio conta que eles “só servem para pedir dinheiro”. Aliás, conta que seu pai também sempre reclamava disso e que, de maneira geral, eles só apareciam para pedir coisas.

Em relação à área profissional, ele diz que “tudo sempre foi muito bom” desde a universidade, que conta ter sido a melhor fase da sua vida. No trabalho, afirma ser referência dentro da empresa no que faz.

“Afastador” de pessoas

Os diversos encontros que tivemos me permitiram perceber o quanto Cláudio era intransigente quanto às coisas que acreditava “serem certas”. Sua opinião sempre era considerada como verdade absoluta e isso atrapalhou ele tanto nos dois antigos relacionamentos como nas relações de amizade, pois os amigos sempre se afastavam.

Para trabalharmos isso, escolhemos a técnica da inversão, representando algumas situações que aconteceram com o paciente, mas trocamos os papéis: eu fui o Cláudio e ele foi a outra pessoa que estava envolvida na situação.

A experiência teve resultado: Cláudio começou a ver em mim o modo como ele agia com as pessoas e percebeu o quanto ele as afastava com suas atitudes.

Foi então que uma coisa ainda mais importante aconteceu: ao perceber suas atitudes, Cláudio conseguiu ver o quanto elas eram parecidas com as atitudes que o pai tomava frente aos outros. Assim percebeu que, de alguma maneira, estava repetindo o padrão de agir do pai.

Jogar pra ganhar

Essa descoberta chocante nos deu a energia para podermos traçar metas para que Cláudio tentasse conter o seu estilo ríspido com as pessoas.

Para isso, estabelecemos planos e pontuações, por exemplo: agradecer alguém por um serviço prestado (2 pontos); dar bom dia para o porteiro do seu prédio (4 pontos); e conversar com alguém na área social de assuntos não relacionados ao seu serviço (5 pontos). E combinamos que, no período entre as sessões, que ocorriam a cada 15 dias, o paciente deveria alcançar um total de 100 pontos.

Nas três sessões posteriores, o paciente não ultrapassou a média de 30 pontos. Porém reconheceu que tinha medo de ser tratado pelas pessoas como ele as tratava antes. Sugeri fazermos ajustes na tarefa, mas ele refletiu que isso não era o melhor e que ele conseguiria alcançar a pontuação proposta.

Com mais 4 sessões, Cláudio conseguiu chegar às pontuações estabelecidas e já parecia outro homem. Relatou que conseguiu entender o padrão de comportamentos que fazia com que ele afastasse as pessoas de perto dele: percebera que tratava as pessoas como se o que elas pensassem não valesse nada, porque agia como se o pensamento dele fosse o correto.

Nesse mesmo período, começou a conhecer uma mulher. Contou-me que, dessa vez, diferentemente das anteriores, olhava para ela como um ser humano, não se achando superior a ela.

Diagnóstico

O processo vivido por Cláudio foi muito feliz em confirmar o diagnóstico que tracei, a partir de nossas muitas conversas. Para mim, havia ficado nítido que ele espelhava todas as atitudes de seu pai, que era seu exemplo maior de sucesso na vida, embora tenha se afastado dele.

O jeito duro e rude do pai para com as pessoas passava uma ideia errada para Cláudio, a de que seu pai era uma pessoa altamente respeitada em todos os locais em que eles moravam. Com isso, o paciente queria ter esse respeito a qualquer custo e por isso começara a imitar todas as atitudes do pai para ser igualzinho a ele.

Volta ao gramado

Hoje passados 9 meses de tratamento, com sessões quinzenais, Cláudio é uma outra pessoa. Ainda estamos investigando alguns casos de sua vida, pois decidimos primeiro combater os sintomas que mais doíam nele para, após isso, trabalhar as causas de maneira mais eficaz.

Cláudio está noivo da mulher que conheceu durante o processo e voltou a praticar diversas atividades de que gostava quando menor.

Com a atividade de pontuação que realizamos, que o obrigava a agir de maneira diferente com as pessoas, ele acabou fazendo novas amizades em seu condomínio e agora, às quartas e aos domingos, participa do futebol dos moradores.

Outro avanço é que se reaproximou de alguns de seus parentes e percebeu que eles não o procuram somente quando necessitam de algo. Pelo contrário, que eles o ajudam em diversas situações.  

Além disso, conversando com seus tios, com quem não tinha tanto contato antes, descobriu que sua mãe era uma pessoa deprimida por ser sempre impedida de expor suas opiniões pelo seu pai. Isso deixou Cláudio chateado por ter sido injusto com ela, já que sempre tinha visto a mãe como “uma maluca”.

Ajudinha para “ser melhor”

Gosto muito da história de Cláudio, que me permitiu contá-la, desde que só trocasse seu nome. Sinto que ela mostra o quanto precisamos das outras pessoas e o quanto sofremos quando não percebemos isso.

É uma história que mostra também que reencontrar as pessoas – sejam amigos, parentes ou colegas de futebol – é reencontrar com a gente mesmo. E mostra que a psicologia pode, de maneira eficaz, ajudar a gente a achar os caminhos para uma vida mais verdadeira, mais completa e mais cheia de afeto.

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