O reencontro de Luana

O reencontro de Luana

Desânimo. Sensação de impotência. Certeza de que se é um fracasso e que a vida não vai a lugar algum, de modo algum, sem nenhuma esperança. Nem adianta tentar.

Essas características poderiam descrever Luana, de somente 34 anos, quando começamos seu atendimento, por meio de consultas online, há cerca de 14 semanas.

Embora tivesse seu trabalho e fosse mãe de dois filhos, sendo que um deles morava fora do país e estudava engenharia, Luana dizia se considerar “um fracasso como pessoa”.

Ao questioná-la sobre o motivo de se sentir assim, ela soltou um caminhão de informações em cima de mim.

Contou que, aos 16 anos, conheceu um rapaz chamado Rafael e se apaixonaram, mas a família dele não aceitava o relacionamento. Então, por motivos religiosos, ele foi enviado para estudar em uma escola distante e os dois perderam contato.

Luana arranjou um namorado e engravidou. Ao descobrirem a gravidez, seus pais a colocaram para fora de casa e o pai do seu filho a acolheu.

O acolhimento, entretanto, durou pouco, pois seu companheiro se mostrou um homem agressivo. Já durante a gestação, Luana era agredida verbalmente todos os dias, com xingamentos como “você é imprestável”, “você não passa de uma parideira” e coisas piores.

Ficou casada até os 19 anos, mesmo sem amor, por medo de não conseguir criar o filho sozinha. Então teve coragem de sair e fugiu escondida para são Paulo, onde ficou um tempo em albergues até arrumar um emprego como auxiliar de limpeza e encontrar uma casa para morar com sua filha.

Conheceu então um rapaz e acabou engravidando novamente, aos 20 anos, dando à luz uma menina. Por seis meses manteve o relacionamento, mas em determinado momento percebeu que não era aquilo que queria e decidiu botar um ponto-final. A parte isso, a convivência com o pai de sua filha continuou extremamente boa.

Luana então seguiu sua vida. Mudou de emprego, começou a praticar exercícios físicos, a frequentar aulas de dança e tomou gosto por fazer dietas e manter seu corpo sempre saudável. Sua vida ia de vento em popa.

Mas foi que, em meados de 2013, em visita à sua antiga cidade, encontrou novamente Rafael, que tinha se casado, mas estava em processo de se separação. Não deu outra:

envolveram-se novamente, numa paixão de verão, mas ela voltou para São Paulo.

Uns meses depois, recebeu uma ligação de Rafael, que estava vindo para São Paulo e queria ficar com ela. Luana aceitou e estava muito feliz.

Ele veio e ambos começaram a morar juntos. Viajavam, faziam muitas coisas e estava tudo muito lindo, até que Luana quis se casar e acabou descobrindo que Rafael não havia se divorciado. Então começou seu pesadelo e ela teve a certeza de que não sabe escolher homens.

Entrou numa espiral para baixo. Deixou de ir à academia, sua alimentação piorou e começou a faltar no serviço. Perdeu o rumo na vida e, para piorar, o pai da sua filha, por não aceitar a situação em que ela se encontrava com Rafael, levou a menina para morar com ele.

Virando a mesa

Apesar da história triste, tive certeza de que conseguiria ajudar Luana. Meu primeiro passo foi questionar seus pensamentos.

Pedi que ela relatasse em suas palavras como se via, o que achava dela mesma. Ela revelou alguns sentimentos como “fracassada” e “imprestável”. Então pedi que ela me explicasse o que significava para ela essas palavras.

Após esse exercício, trabalhamos uma lista de conquistas, com a qual lembramos todos os seus momentos de vitória, o que fez com que ela caísse si.

Luana lembrou-se de quando ficou sozinha com seu filho e se levantou. Recordou que progrediu em seu trabalho por méritos, que ajudava seu filho que morava fora para poder estudar e que tudo aquilo eram conquistas dela.

Após combatermos os pensamentos disfuncionais, partimos para análise da sua relação amorosa. Nos aprofundamos em como ela se sentia, como via Rafael e outras questões.

Nessa fase da terapia, Luana percebeu que o sentimento por Rafael era confuso. Por mais que se lembrasse dos momentos bons que teve quando o reencontrou, não conseguia ver um futuro com ele.

Ela percebeu ainda que tinha sido só uma paixão “de romance” e que, por estar presa à despedida que teve com ele no passado, colocou todas as forças em uma união que não lhe fazia bem. Por mais que Rafael dissesse que a amava, ele não estava disposto a construir uma família com ela.

Foi quando pedi para Luana enumerar 50 objetivos que ela tinha. Após isso, pedi que analisasse em quantos deles Rafael fazia parte da história dela. O resultado foi revelador. Dos 50 objetivos, somente em 12, ele tinha alguma participação.

Hoje já contabilizamos 11 sessões.

Luana não está mais com Rafael, voltou a praticar exercícios e diz que, por mais que goste da presença dele, seu grande sonho é ter uma família e, por ele não estar disposto, ela vai buscar um caminho que a complete.

O tratamento continua, mas agora de maneira mais espaçada, de 15 em 15 dias e temos como objetivo fazer com que Luana se sinta cada vez mais segura, para que complete o seu verdadeiro reencontro, dessa vez, consigo mesma. Dessa forma, ao encontrar um novo companheiro, ela não vai projetar nele os desejos dela e, com isso, pular etapas necessárias à construção de qualquer relacionamento saudável.

Obs: Todos os nomes utilizados no blog são nomes fictícios, e os casos antes de serem publicados, são autorizado pelos pacientes.

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