Hipocondria: quando o medo de estar doente pode também ser uma doença

Hipocondria: quando o medo de estar doente pode também ser uma doença

Conta a história que o milionário, engenheiro e produtor cinematográfico Howard Hughes, interpretado no cinema em 2004 pelo ator Leonardo Di Caprio no filme “O Aviador”, cresceu superprotegido pela mãe, que tinha um medo mórbido de germes.

E dizem que o menino – cujos pais morreram ainda em sua juventude – herdou essa característica da mãe e, na idade adulta, chegava a exigir, de todos os que tocavam os mesmos objetos que ele, que usassem luvas brancas ou lavassem as mãos diversas vezes, tudo por medo de adoecer.

Conexões com a ansiedade

Ainda que sucesso no cinema e nas artes – como esquecer o defunto autor Brás Cubas, personagem central da obra capital de Machado de Assis – , a hipocondria é uma síndrome bastante séria e ligada principalmente a quadros de ansiedade.

No texto “Sobre o transtorno de pânico e a hipocondria: uma revisão”, os pesquisadores Albina Rodrigues Torres e André Luiz Crepaldi explicam exatamente isto: que as crenças e os medos hipocondríacos possuem associação predominante com sintomas ansiosos e, só secundariamente, com sintomas depressivos.

Eles chegam inclusive a citar um estudo que encontrou sintomas de ansiedade em 85,7% de um grupo de pacientes com hipocondria. Em outro estudo, a porcentagem chegou a 22%.

Você deve estar se perguntando: por que será que as porcentagens variam tanto? Existem muitas respostas, mas uma coisa é importante saber: a hipocondria é muito difícil de conceituar e diagnosticar. Conheça, abaixo, algumas dessas dificuldades de saber se alguém é ou não hipocondríaco.

Dificuldades de definir “hipocondria”

  • a pessoa pode demonstrar desde ansiedade pela saúde até convicção de estar doente;
  • o grau dos sintomas deve ter gravidade suficiente para não resolver com tranquilização pelos médicos, mas não tanta para ser considerada delirante;
  • como é um quadro egossintônico e crônico, aproxima-se muito dos transtornos de personalidade;
  • quando existe uma doença física, fica difícil saber o grau de discrepância necessária entre a ansiedade e o quadro médico;
  • é de difícil diferenciação em relação a outros transtornos, como depressão, somatização, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e transtorno de pânico (TP).

Em decorrência dessas dificuldades, foi proposto o Illness Behavior Questionnaire, um questionário constituído por sete escalas: preocupação com doenças, com dores, hábitos de saúde, crenças hipocondríacas, tanatofobia, fobia de doenças e preocupações corporais.

Um fato curioso é que, aplicado o questionário a um grupo de teste, os pacientes hipocondríacos só não se diferenciariam dos não-hipocondríacos em relação é uma coisa: hábitos de saúde. Ou seja, por essa escala, o “hipocondríaco” não cuida da saúde mais do que as outras pessoas.

Voltando para nosso aviador Hughes, do começo do texto, essa informação indicaria para ele outro diagnóstico, talvez uma mania ou TOC, mas não hipocondria, afinal, ele fazia de tudo para não ficar doente!

Como explicado, é muito comum também a associação entre hipocondria e transtorno de pânico. Afinal, se alguém se sente repentinamente tão mal a ponto de acreditar que pode morrer, é natural que acredite que tem algo errado com seu organismo, certo? Por isso, é uma verdadeira batalha diagnosticar a hipocondria dentro dos sintomas do TP.

Em um estudo recente, com portadores de TP, ansiedade generalizada e distimia, cientistas concluíram que a presença de hipocondria piora a evolução desses quadros, que tendem a se tornar crônicos. Vale ainda dizer que os cientistas conhecem tanto casos em que a hipocondria precede o TP, como casos em que ela aparece depois.

Como explicamos, a hipocondria aparece associada a muitos quadros, principalmente, ansiosos. Trata-se de um transtorno que causa muitos sofrimentos e, para cada quadro, há uma maneira diferente de melhorar a qualidade de vida do paciente.

Por isso, se você conhece alguém, ou se você mesmo percebe ter preocupação excessiva com doenças, procure um psicólogo. Ele poderá te ajudar a ter

um diagnóstico correto e, se for o caso, livrar-se da “verdadeira doença”, aquela que pode estar sugerindo todas as outras.

Deixe uma resposta