É urgente combater a violência psicológica contra a mulher

É urgente combater a violência psicológica contra a mulher

A violência contra a mulher parece seguir uma escalada no país. Há casos de mulheres queimadas pelos companheiros, outras espancadas até a morte, outras que são mortas na frente dos filhos. Um horror que parece não ter fim.

Mas eu gostaria de chamar a atenção para o caso da advogada Luciana Sinzimbra, de Goiânia. Em dezembro, foi divulgado um vídeo em que seu então namorado, o piloto Victor Augusto do Amaral Junqueira, a agrediu por cerca de uma hora e meia.

Em entrevista ao canal Metrópolis, ela disse que o relacionamento durou três anos, mas que a violência começou aos poucos:

“Foram coisas que foram começando com julgamentos, ele já chegou a quebrar o celular com raiva, já chegou a deixar marcas roxas em mim ao me segurar, ao me empurrar. Foi progressivo, até chegar o momento que ele me deu um tapa na cara”, contou a advogada.

O depoimento de Luciana chama a atenção para um tipo de violência muitas vezes tratada como menos importante, mas que deixa marcas profundas nas mulheres e, muitas vezes, precede as agressões físicas. Trata-se da violência psicológica.

Como explicam as pesquisadoras Luciane L. da Silva, Elza B. S. Coelho e Sandra N. de Caponi, no estudo “Violência silenciosa: violência psicológica como condição da violência física doméstica”, é possível perceber em muitos relacionamentos abusivos uma progressão que muitas vezes passa pela violência psicológica embora a sociedade em geral não aceite isso:

“Parece existir uma verdadeira negação de que fenômenos como humilhação, desqualificação, críticas destrutivas, exposição a situações vexatórias, bem como desvalorização da mulher como mãe e como amante constituem, de fato, formas de violência contra a mulher e que, muitas vezes, culminam na violência física”, explicam.

Da violência psicológica à violência física

Segundo as autoras, é comum que os relacionamentos abusivos passem por alguns passos até chegarem à violência física:

Primeiro, a violência aparece de forma mais sutil. O agressor vai diminuindo a liberdade da vítima, criando situações para que ela se isole ou deixe de usar roupas ou fazer coisas de que ele não gosta.

Depois, aumentam as situações de constrangimento, em que a mulher é vítima de críticas públicas, muitas vezes em tom de brincadeira, mas que a humilham, minam sua autoestima e a colocam sempre em situação inferior. As estratégias de constrangimento são as mais diversas, como chantagens envolvendo dinheiro e pequenas sabotagens para que a mulher não saia de casa, tudo até que a mulher desista de planejar sua vida e comece a achar que nada pode dar certo.

Num momento seguinte, as agressões se tornam mais evidentes. A violência passa a se manifestar verbalmente, com humilhações privadas ou públicas, exposição da mulher a situações constrangedoras e ridicularização do corpo da parceira, com uso de apelidos ou características que causam sofrimento. Em tais casos, muitas vezes a mulher passa a se justificar ou justificar as atitudes do companheiro, se desculpando.

O passo seguinte são as agressões físicas, incluindo ameaças de morte. É importante notar que, para chegar a esse ponto, o agressor fez de tudo para minar a autoconfiança da vítima, tirando dela qualquer força que tinha, de forma que dificilmente ela consegue reagir ou denunciar seu agressor.

Como a psicologia pode ajudar

Quando se chega a uma situação de violência física e a mulher consegue reunir forças para denunciar, o estrago psicológico está feito e a pessoa terá muita dificuldade para se recuperar. Isso considerando que ela saia viva das agressões.

Por isso, perceber os sinais acima descritos como violência psicológica é tão fundamental.

Vale dizer que, nas primeiras fases da violência psicológica, a mulher ainda tem alguns graus de liberdade, podendo, por exemplo, procurar um terapeuta para ajudá-la. Por isso, na presença dos menores sinais acima descritos, aconselhamos a busca de um profissional.

Como explicamos, quando a violência evolui, a mulher tem seu direito de ir e vir cerceado. O agressor passa então a controlar a vítima de tal forma que nem sequer ela consegue procurar ajuda, seja porque não pode nem sair de casa, seja porque se sente ameaçada, ou até porque sua mente foi tão devastada que ela já concorda com tudo o que faz seu agressor.

Importância de falar sobre a violência psicológica

Infelizmente, a sociedade ainda fecha os olhos para a violência psicológica, ainda mais do que fecha para a violência física. Por isso, é fundamental falarmos do assunto para tentarmos mudar um pouquinho que seja esse quadro.

É o que esperam também as autoras do estudo que citamos acima. É com suas palavras que nos despedimos:

“Com a publicização dos primeiros sinais de manifestação da violência psicológica a sociedade, de um modo geral, pode passar a ter uma visão diferenciada, podendo identificá-la tão logo se manifeste e refreá-la evitando, assim, que se agrave ou se transforme em violência física”.

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