Bem-vinda de volta, Helena!

Bem-vinda de volta, Helena!

Contam as narrativas de Homero que a jovem Helena, conhecida então como a mulher mais linda do mundo, deixou um casamento sem amor para viver com Paris, que lhe roubou o coração.

Menelau, o esposo abandonado, então usou a desculpa de resgatar a esposa para iniciar uma guerra que durou 10 anos, a famosa Guerra de Troia, que acabou com a vitória dos gregos, além de milhares de pescoços e corações partidos.

Quis contar essa história porque, há algum tempo, uma outra Helena entrou pela porta do meu consultório, extremamente exausta e abatida.

Bem vestida, parecia ser uma pessoa de classe média alta, de gestos leves, o que contrastava imensamente com o seu semblante, que irradiava uma tensão quase sólida no ar. A testa estava franzida e ela mal sorria. Olhava de maneira opaca ao redor da sala, sem nunca fixar o olhar em mim.

Pedi que se sentasse, o que fez apoiando os ombros sobre os joelhos e sua bolsa no colo. A tensão era tanta que parecia que a qualquer instante algo de muito errado iria acontecer.

Apresentei-me, perguntei de que maneira ela esperava que eu a ajudasse, e foi quando ela relatou que tinha a impressão de que estava enlouquecendo.

Perguntei o motivo e ela, quase que imediato, respondeu que sempre tinha ataques de ansiedade. Começando a chorar, contou que convivia com isso havia anos e não sabia mais o que fazer.

Na verdade, Helena chegara até o consultório por indicação de uma amiga, mas disse que não tinha esperanças, que estava conformada com a situação.

Ela contou ainda que, por diversas vezes, olhou pela janela de seu escritório e sentiu um pânico terrível, um sufocamento sem motivo algum. Disse que seu coração disparava e suas mãos, de tão tremulas, não conseguiam segurar um frasco de remédio sem derramar.

Esses ataques aconteciam sem motivo nem aviso prévio e, quando ocorriam, ela voltava correndo para casa e lá permanecia, às vezes por vários dias, e que isso estava prejudicando demais seu rendimento no serviço.

Embora eu já tivesse em mente o que poderia estar acontecendo, pedi para ela me contar um pouco mais sobre sua vida. De início, ela hesitou, como se aquilo a assustasse com o que pudesse vir a revelar. Porém, com o decorrer da sessão, ela se abriu um pouco mais.

Helena então contou que estava insatisfeita com sua vida. Havia acabado de terminar um relacionamento porque seu noivo não conseguia mais viver naquela situação sempre apreensiva em que viviam por causa do comportamento da noiva.

A conversa foi fluindo e pude perceber a presença de diversos outros medos e fobias. Uma questão, entretanto, tinha posição de destaque: Helena estava perdendo espaço em seu serviço porque não aceitava ir a eventos, palestras e nenhuma outra situação em que estivessem muitas pessoas em um local fechado. Ao mesmo tempo, também não suportava estar em locais abertos, vazios, sem ninguém.

Conversamos bastante, mas Helena custava a acreditar que algo pudesse ser mudado em tudo o que vinha vivendo. Para mim, entretanto, o quadro parecia bastante claro e eu propus a ela um desafio: o de tentarmos melhorar a relação dela com o trabalho. E, como esse era um ponto urgente, ela aceitou.

O tratamento

O nome técnico do quadro que trabalhamos é Transtorno de Ansiedade Social, o TAS. No meu entender, o conjunto dos sintomas desse transtorno estava prejudicando muito Helena no trabalho e precisávamos evitar que algo de pior viesse a acontecer, como, por exemplo, ela perder o emprego.

Listagem do conhecimento

Para realizar o tratamento, apresentei a ela a técnica da listagem. Nesse exercício, ela construiu quatro listas. Na primeira, enumerou todos os aspectos, fossem emocionais, físicos ou materiais que existiam em sua vida e que ela gostava que estivessem lá.

Na segunda lista, ela descreveu todos os aspectos que havia na sua vida, mas que, por algum motivo não a faziam bem ou ela não gostaria que estivessem lá. Na terceira lista, Helena relatou tudo aquilo que ainda não possuía, mas que gostaria de possuir. Por fim, na última e talvez mais importante lista, ela escreveu tudo aquilo que não havia e que, de jeito nenhum, gostaria que houvesse em sua vida.

Após construir essas listas, começamos a questionar pontos em cada uma delas e, em certo momento, descobrimos que algumas atitudes que Helena tomava de maneira automática a estavam levando para atitudes ou situações que ela não desejava ter.

Um dos itens que ela listou, por exemplo, na segunda lista, foi: “Acordo cedo, mas fico enrolando para levantar e ir tomar café”. A princípio, parecia uma ação que pouco atrapalhava sua vida, mas, com o decorrer das sessões, descobrimos que, na época em que Helena começou a se sentir mal em eventos do serviço, era devido ao fato de chegar atrasada e levar broncas do chefe na frente dos convidados ou outros colaboradores.

Espelho, espelho meu

Após descobrirmos essas atitudes automáticas, sugeri que Helena comprasse um caderno e passasse a fazer registros diários, como, por exemplo, anotar quanto tempo levava para desenvolver cada tarefa, desde acordar cedo até ir dormir.

Após duas semanas olhando para esse espelho das suas ações, que era o diário, Helena já havia conseguido otimizar seu tempo e não se atrasava mais para o serviço nem para compromissos sociais.

Para irmos além

Hoje continuamos o tratamento, que já completou 13 semanas, e conseguimos modificar muitos aspectos em que Helena relatava sofrimento. Além de ter voltado a participar de reuniões e congressos, daqui a uns dias, em meados de abril, ela irá participar como palestrante em um evento em sua antiga faculdade.

Ainda temos que trabalhar algumas situações, é verdade. Porém, Helena já consegue controlar as crises de ansiedade através das técnicas de respiração diafragmática e de exposição ao vivo, que é a prática de se expor de maneira segura e gradual a eventos e situações que antes a incomodavam (participar de reuniões, por exemplo).

E se a Helena de Troia é um símbolo da mulher verdadeira, que transformou sua vida seguindo o amor mandando às favas as convenções sociais, bem é verdade que a Helena que entrou cabisbaixa em meu consultório já é hoje uma outra mulher.

Há uns dias atrás, ao termino da sessão, ela me olhou com um brilho nos olhos que não existia no início do tratamento.

Para nossa alegria, disse estar muito feliz por ter descoberto que aquele mal que tanto a fez sofrer estava finalmente sendo vencido.

*Obs: Minha paciente me liberou para contar sua história, e só combinei de trocar seu nome, que aqui virou “Helena”. É uma história real de uma conquista real!

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